O Fadista

SCROLL

Talvez aconteça com todos. O desespero também é capaz de ajudar. Não estamos realmente prontos para a mudança. É como ter um filho, só damos conta disso quando chegamos lá. Quando a nova vida existe e o mundo se abre para um novo patamar, sem retorno. Mesmo que nos contem não sabemos como é. Sim, podemos imaginar, mas não é a mesma coisa. E a partir daí, é sempre para a frente. Sem medo.


É preciso começar por algum lado. A esse processo dá-se o nome de “Início”. Começo, abertura, entrada. Os sinónimos são variados. É isso que estou a fazer agora. A advertência, única, é de que não se deve ligar muito às primeiras letras ou ao que dizem as frases iniciais. É só para entreter, para tentar agarrar quem as ouve. Para que não fujam daqui. Vem na medida das palavras que vão surgindo e que de pronto se tentam compreender. Umas melhores do que as outras. Primeiro chega o som, depois vem o eco. Como nos relâmpagos. E por fim o declive da sua memória.

Espantoso. Achava que já tinha passado aquele limite de idade em que já não fazia figuras como esta. Não, não é vergonha. Só a promessa escondida que reduz a minha personalidade e a deixa à solta, crua, e me mantém apto junto aos restantes. Neste Mundo que agora se abre. De certo modo, e mesmo com todo o meu passado, de pessoa respeitável, o que já é um feito a ter em conta, nem eu estava à espera de me comportar desta forma. Mas aqui estou. A pisar terreno desconhecido. Não conseguindo fugir ao inevitável. Já me tinham avisado. Por muitas vezes tinha observado o comportamento dos outros em circunstâncias idênticas. Até me tinha rido com isso e não tinha dúvida dúvidas de que era bastante ridículo. Agora, não há muito a dizer, nem mais nada para explicar. Aconteceu. Isso é tudo o que conta. É aproveitar. Vou até ao fim da linha.

E como foram as primeiras frases desta minha nova vida? Nem sei. Foi como se estivesse há muito a olhar para a mesma imagem, lá ao longe. Remota, desfocada, uma coisa muito minha, que a pouco e pouco se foi tornando mais nítida, a ganhar os seus contornos e a receber as suas cores, de sombras profundas. A tornar-se mais clara. Para no final perceber do que se tratava e reconhecer a sua forma por completo, compreendendo acima de tudo que este sintoma – tornado facto – me tinha acompanhado a vida inteira, e que não era mais do que a configuração suprema do meu carácter às voltas dentro de mim. Só que até ali, durante todo o tempo em que a ignorei, não tinha tido capacidade para a interpretar, porque não tinha aprendido a viver. Assim. E quando isso aconteceu já era tarde demais. Já nada tinha o seu valor. Se isto é que é viver? Não quero encontrar uma resposta. A partir desse ponto nem por sombras queria voltar para trás. Nunca mais. Estava a desenhar uma nova forma de escrita com uma compostura rara e desconhecida. Letras.

E já vamos longe na introdução, já passámos disso. Nesta altura já estou muito mais à frente. O “Era uma vez…” já aconteceu muitas vezes.

Foi num dia, num ciclo de cinema, eu estava ali quieto, como em todos os filmes, as mãos entrelaçadas em cima do colo, no escuro, numa das filas da frente. Fui sozinho. A sala quase cheia. O aborrecimento, lembro-me, legendava o que estava a ver, que até ali não trazia nada de extraordinário. Até ao momento em que ele entrou na tela, vindo devagarinho, passo a passo, e se pôs a cantar.

Foi um arrepio, a primeira frase. Pensei que fosse do frio, do ar-condicionado, da escuridão súbita. Mas ele continuou e eu não quis acreditar. Comecei a sentir-me esmagado, numa paródia de pleno arrebatamento. Ele a andar, com o sol a rebentar, a um fio de nascer e ainda sem deixar a noite, com o nó da gravata fugido da garganta, o som das cordas na voz da guitarra, continuando sem mais esperança até ao dia seguinte.

Ele. Sim.

Pensei que tudo aquilo era saudade. Essa palavra que não colabora. Saudade do mar. Saudade a navegar na lembrança da cidade que me encantava. De onde tinha vindo. O amor por uma vida remota e desfocada, funda de sombras, que retomava ali os seus divinos contornos e encantos. Visível. Toda ela evidente. A apertar-me contra a cadeira. Contra a minha estranha forma de vida.

E fiquei, sentando, as mãos em alvoroço, o olhar fixo naquela exibição da realidade, e nas outras que se iam seguindo. Pequenino, ali, sem o conseguir encarar de frente. E a projecção do meu inevitável destino a tornar toda a minha existência clara. Crua e simples. Não foi de todo medo o que senti. Apenas a vitalidade de estar vivo.

Que tempos esses de puro alerta, sem horas, sem dias. Apenas o pó de frases bonitas a apertar com um nó todo o meu ser. A música. O canto. Tabefes, murros, desastres. Mas ao contrário. Sim, com as mesmas letras, mas do lado oposto. A entrar pela nuca.

Não conto o que fiz depois. Que foi tanto. É, se me tivessem explicado antes, diria que depois dos quarenta já ia muito atrasado, para abraçar toda aquela adolescência por viver. Mas isto não tem idade. Não tem outro feitio. É alegria pura. Sempre, sempre que quiser.

Sim, tem piada só de pensar. Dá-me uma imensa vontade de rir. Continuo a achar que é pateta, claro. Mas podem falar à vontade que não ligo nenhuma. E isso não é bom? Não é um feito considerável? Correr atrás dele feito o maior dos palermas. Decidido. Seguindo-o, para aqui e para ali, país fora. Aos gritos pela estrada, como aquelas meninocas das novelas. Cidades, vilas, aldeias. Quero lá saber. Digo quantas asneiras for preciso. Isso faz bem. Ajuda. Faço trinta por uma linha, mas eu vou, de dentes cerrados, e amo o azul, a púrpura e o amarelo que moldam toda essa vida. Estou lá! Pouco me interessa, como já me disseram tantas vezes, que me achem, sem sombra de dúvida, bastante ridículo. A verdade é tão simples.

Fico quietinho, num lugar qualquer nas três filas da frente, e sinto. Fecho os olhos. Deliro um pouco. E é uma certa maneira de sofrer. Hmmm… Os arrepios de novo. Alguém consegue perceber isto? Saio fora de mim, mas ao mesmo tempo entro, porque aquilo, foi o que me contaram quando era criança, é que é o Paraíso. E eu acredito nisso. Não é uma questão religiosa. Eu sou completamente incrédulo perante essas coisas que fazem as guerras no mundo. Não ligo nem um segundo a essas histórias. E no entanto… sigo-o. Mas ele, posso dizer, é uma pessoa de carne e osso. Não é nenhuma relíquia do passado. Nenhum fantasma. Não lhe inventaram uma cruz nem uns parafusos. Ou um Black & Decker.

E agora estou aqui em cima desta árvore, no meio dos pássaros, a olhar para o palácio, que nem um jumento, à espera que ele saia. Formidável! Estão cá mais. Mais mulheres do que homens, como sempre. Mas não importa. Para encher o copo, basta que ele se vislumbre. Chega vê-lo de raspão. Eu que não consigo encará-lo de frente. Para mim, se alguém quiser saber, esta coisa, é um amor que eu não sei explicar. Facilmente o coração me salta para as mãos, assim, alvoraçado, e fica aqui entrelaçado no colo. Venho sozinho, à mesma. Não está escuro, está um sol imenso. Céu azul e tudo, gaivotas pelo ar. Muitas. Vieram também, com certeza. Que figura esta. A minha família diz o mesmo. Tão bom! Não conheço mais nada assim. Acreditem, eu nem gostava disto. Facilmente solto as lágrimas que me apetecer. Nem é que me apeteça, mas elas soltam-se sozinhas. E isso não é saudade, é saúde. Muita. Choro, sem ninguém dar por isso, assim que ele abre os lábios. E solta do nó da garganta a guitarra toda dobrada dentro da voz. Mas é uma coisa muito íntima, muito minha e dele. Só nossa. E só eu é que noto.

Mas é em absoluto a vida toda a voltar atrás e sou eu a voltar a vivê-la. E para isso, o fim, escreve-se com qualquer letra. O que importa, no final de tudo, são apenas os ecos da memória. Este precipício, que aqui fica. Que nunca mais vai parar ou deixar-me triste.

[Começava assim a colecção “As Marquesas”. Foi em Abril de 2008, ou coisa assim]