Eufuribundo

SCROLL

Lá ao fundo, a trezentos metros, um trânsito intenso a aguardar no semáforo. Autocarros de dois andares e de três. E em quatro segundos a avançarem para o precipício do vulto que tinha deixado no meio da avenida. Que não via nem olhava. Porque não tinha por onde ver nem olhar. E por isso não era visto. Mas mirava de soslaio na minha direcção. A troçar de mim.


Ouvi a voz pela primeira vez quando me debruçava sobre um velho a quem estava a dar uma esmola. Dizia: “Queres ser imortal?” Olhei para os lados, não havia mais ninguém. Olhei para a figura aos meus pés, quase esvaída de vida e impressionei-me. Dizia: “Queres ou não queres?”

“Como assim?”, respondi-lhe. “Imortal, viver para sempre, nunca morrer…” A voz vinha de uma boca que não se abria, vinha de um sentido que era impossível determinar. Mas lá estava, nos meus ouvidos. Como um eco de um pequeno pesadelo. “Quem não quer?”, disse-lhe. “Mas há uma coisa”, continuou.

Debrucei-me novamente e observei bem aquela figura. Esguia. Um tronco perdido na brisa do vento. Esquecido. Sem se saber se era macho ou fémea. Cabelos desgrenhados, uns olhos fugidos. E umas vestes negras, como um saco de plástico, para levar o lixo. Como se toda aquela figura, na sua forma, na impossibilidade de existir, estivesse no fundo a gozar comigo. Ou a elogiar-me.

“Tens de ficar enfermo…” e repetiu de novo: “Tens de ficar enfermo!”

Só que eu não percebi bem. Pensei noutra palavra, como se tudo aquilo fosse mal traduzido. E disse: “Furibundo? Tenho de ficar furibundo para ser imortal, é isso?”

“Ajuda-me a levantar”, ouvi, num ínfimo de súplica. E eu peguei nele – quase que não existia – e ajudei-o a levantar-se. Um saco de lixo. Em pé não se percebia bem que altura era aquela. Se era alto, se era baixo. Se era, por fim. A sua existência era toda uma coisa má de se ver, porque não se podia distinguir. Dos outros. Do resto dos outros. E eu achei que estava a delirar. Não era possível acreditar naquela realidade.

“Põe-me ali no meio da estrada onde passam os autocarros”. Da sua boca parecia sair o uivo de uma expressão remota de um filme muito antigo, quando ainda nem existiam filmes. Primeiro o som, depois a imagem cheia de atraso. Séculos. E não se compreendia de onde vinha o som nem a imagem. “Para ali?”, perguntei. “Sim, leva-me até ali, para o meio do alcatrão, arrasta-me se for preciso”.

E levei-o. Ao colo. Peguei nele ao colo e levei-o. Ele anichou-se um pouco a mim, como um bebé. E fez-me lembrar quando peguei pela primeira vez no meu primeiro bebé. “Agora podes deixar-me. Deixa-me aqui!”, um zumbindo de gente era tudo o que se podia percepcionar. Sem qualquer vestígio de alma.

Lá ao fundo, a trezentos metros, um trânsito intenso a aguardar no semáforo vermelho. Autocarros de dois andares e de três, eléctricos, a gasóleo ou a que fosse. A restos de óleos do jantar! E em quatro segundos a avançarem para o precipício do vulto que tinha deixado no meio da avenida. Que não via nem olhava. Porque não tinha por onde ver nem olhar. E por isso não era visto. Mas mirava de soslaio na minha direcção. A troçar de mim.

“Queres ser imortal?”, parecia ainda balbuciar.

Quando os autocarros deixaram de passar. E já era noite cerrada, porque muitos foram aqueles que passaram. Ainda restava alguma coisa dele – ou dela. Os cabelos desgrenhados. Uma dentadura com dois dentes. Um olho aqui, outro ali. E o saco sem asas a voar ao vento. Mas ainda a voz. “Tens de ficar enfermo!”

Quando me ia embora, ouvi: “Pega em mim. Pega em mim e põe-me dentro do saco.” Corri um pouco, saltei para cima de um banco de jardim e apanhei o fim ou o princípio do plástico.

Sim, recolhi os restos. Uma orelha na sarjeta, dois dedos levados por um cão. Um sapato com um pé lá dentro, já cheio de formigas. E a voz: “Deixa-me onde me encontraste.”

Aí percebi o que era ser imortal. E não furibundo. E não enfermo. Voltar ao início, ao ponto de partida.

E não fiz o que me pediu. Outros ouvidos iriam passar.

  • Amigo

    “Conócete a ti mismo”, escreveu Adolfo Bioy Casares, “conviértete en un egoísta y un enfermo”.