Exército de Kamikazes

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A neve não pára de cair. As nuvens não deixam de passar. Há um céu azul por todo o lado. Ursos brancos a rodopiar. Um ambiente espiritual de último grau. Uma cena de fim de tarde numa terra santa. Não se sabe se é um telefonema ou uma forma de pensar, de ligar à consciência. Que quer dizer a água em flocos, alguém consegue explicar? Um chamamento divino? Ou será apenas a bateria a ficar fraca?


Está um calor de morrer. Achas que é possível começar a nevar, assim? Com o calor que está, se começar a nevar, quer dizer que estou a ficar doido? Que é uma alucinação, que não tomei os medicamentos hoje de manhã, antes de sair de casa? Mas – vou dizer baixinho – está mesmo a nevar, começou agora. Sim, também penso que é descabido isto estar a acontecer. Vinha na ponte. Sabes aquele sol estrondoso que estava hoje de manhã quando bebemos café juntos. Um céu azul com aqueles ursos polares e os coelhos brancos a fazerem de nuvens, que se puxam uns aos outros, entrelaçados num fio de vento? Sim, uma claridade nunca vista – rara! – aqui. Via-se a Grande Metrópole à direita, tenho a certeza que vi o edifício mais alto a acenar-me, com uma pessoa lá dentro a dizer-me adeus. À esquerda quase que se via a Grande Muralha, juro, não estou a mentir. Via-se mesmo. E eu não conseguia tirar os olhos daquilo. Do que estava lá ao longe, tão claro, tão perto. E talvez tenha sido isso. Que me provocou este estado. Este devaneio. Um deslumbramento sem objecto. Que me fez perder o rasto de toda a minha astúcia.

Estava tudo a correr bem. Plano, como sempre. São horas de ir para casa, vai-se para casa, não se pensa em muito mais. Quando cheguei ao fim da ponte, antes de passar por aquele pequeno túnel novo, por baixo da rotunda, começou a nevar. O céu azul, ainda. O Sol, ainda. E neve. Grossos flocos de neve! Dá para acreditar? Não dá, eu sei. E o mais incrível é que quando saí do túnel, trezentos metros mais à frente, quinze segundos depois, o alcatrão estava todo branco. O passeio estava assim também. E eu não queria acreditar.

E não acredito. Está tudo claro, sem cor nenhuma, só o claro do branco. Uma extrema alvura, como se diz na tua terra. Parei o carro, para além de ter medo de ter um acidente com o espanto, queria confirmar. Encostei-o à berma e saí, a pensar que esta cidade não tem limpa-neves. E liguei-te para te contar. Para não pensar que estava doido. Para não pensar que de repente estava sozinho e que o mundo se tinha virado de pernas para o ar. Não se virou, eu sei, mas é tudo tão estranho, todo este fenómeno. Aqui a falar contigo e este fresco a cair-me na cara. É incrível. Pensa-se em tanta coisa. Coisas que acontecem e que não se explicam, tornam-se realidade por qualquer forma de destino. Uma folha que se rasga do percurso da História e começa a voar para longe. Para tão longe.

Tão longe.

Estranho. O destino. Imagina, já ouviste falar da Síndrome de Jerusalém? É outra particularidade que salta fora da engrenagem, uma corda que salta da corrente e ganha uma outra forma. Um urso pardo do céu que se transforma no coelho branco que seguia à sua frente, sem pedir licença.

Este é um bizarro fenómeno que acontece na Terra Santa. Os peregrinos – imagina os turistas – que visitam por exemplo o Muro das Lamentações – talvez possa acontecer também em Meca ou em Roma, não sei – ao fim de alguns dias, têm tendência para acreditar que fazem parte de uma experiência sobrenatural, que se transformaram na reincarnação de Cristo. De São Pedro, Moisés ou Adão. Que ficaram com as feições de Maomé. De Lázaro, de Holofernes. E, às vezes vestidos com as roupas de cama dos hotéis, para parecerem mais típicos, saltam para a rua a declamar os Salmos aos berros, a meio da noite.

Embriagados pela cidade, banhados pelos rituais copiosamente registados durante o dia, cheios de sede de religião, de se tornarem profetas. De se inventarem. Acabam por saltar para fora da carruagem.

Oh como eu gostava de me inventar. De me tornar Aquele.

É o que me parece isto tudo, um fenómeno religioso, este gelo fofo que não se desfaz ao sol. Sentes o teu gelo a desfazer-se? Um hálito místico. Um mel? Sim, queria ser Mel, apenas. Inventar-me todo em Mel. Daquele mais sobrenatural.

A neve não pára de cair. As nuvens não param de passar. O céu azul lá está a olhar para mim. Os ursos. Aqui mesmo por cima. Um ambiente espiritual de último grau. Uma cena de fim de tarde no Monte do Templo, nesta terra santa. Mas esta água em flocos, que quer dizer, podes explicar? Um chamamento divino?

Há mais. Em 1817, em Itália, um jovem turista chamado Henri Beyle – ou Stendhal, o nome que o trouxe para o palco como o famoso escritor francês do século XIX – assim que colocou os pés em Florença começou a sentir-se dominado pela intensidade da riqueza histórica e artística da cidade. Uma sensação de desconforto sublime. Na Catedral de Santa Croce (onde se encontram os túmulos de Miguel Ângelo, Galileu e Maquiavel) quando olhou para o tecto e encarou os frescos de Giotto pela primeira vez, começou a sentir que o chão lhe fugia dos pés e que as paredes que o circundavam se moviam vertiginosamente. Em rodopio.

Ainda me lembro do que escreveu depois: “A ideia de estar em Florença e a proximidade dos grandes homens de quem tinha visto os túmulos já me tinha posto numa espécie de êxtase. Ali¸ absorvido na contemplação da beleza sublime¸ aproximei-me dela e como que a toquei. Atingi esse estado de emoção que permite as sensações celestes, essas que só as belas-artes e os sentimentos apaixonados podem dar. Ao sair da catedral¸ o coração batia-me com muita força e senti-me a esvair¸ tive medo de cair no chão. Tive de me sentar num dos bancos da Praça. Precisava da voz de um amigo que partilhasse a minha emoção”. É o que eu estou a fazer agora, a repartir este meu viver. Ah, sagrada tecnologia!

A partir daí, das palavras escritas, o fenómeno ficou conhecido como a Síndrome de Stendhal. Acontece principalmente nas Galerias Uffizi. A exposição a doses elevadas de beleza artística causa tonturas, dores de cabeça, confusões na alma. Pulsação elevada. Arritmia cardíaca: art attacks. Podem durar dias. E não têm cura. Não há vacinas, não há uma receita médica. Há congressos por esse mundo fora, mas nenhuma explicação em concreto. A coisa abre e explode cá dentro. É simples. Eu creio que podem durar anos, se se trata de um outro tipo de êxtase que também aperta no coração. É o que acontece com os flocos que me lavam a cara. Que escorregam para dentro de mim. Entram e não saem. Caem e afogam-se, lá dentro.

Na Síndrome do Canal Cárpico, a medicação também não cura, alivia apenas. O problema não são as carências do corpo. São defeitos nos tendões originados pela repetição de movimentos em contínuo. Defeitos sem interrupções. Um pensamento que não cessa pode causar o mesmo congestionamento. Não tem cura. A Síndrome de Jerusalém não tem cura. A de Stendhal também não. A única prevenção é não ir lá. Não ver. Não sentir.

A Síndrome do Edifício Doente, conheces? Está relacionada com a qualidade do ar que circula lá dentro. Causa letargia, cansaço, tonturas. Vómitos. Falta de concentração. Má disposição. Tem tudo a ver com os ocupantes dos edifícios. A maneira como eles respiram, como eles se vestem, como eles falam. Como eles sorriem. Tudo isso torna o edifício doente. Não há cura quando se está rodeado de pessoas assim. A única forma de o evitar é não ir lá. É não ir trabalhar, é ficar em casa.

Ir para a praia. Olhar para o mar.

Queria tentar compreender isto que está a acontecer, esta coisa da neve, mas não estava a conseguir. Precisava de uma voz amiga para partilhar a minha emoção. Por isso marquei o teu número. Se calhar já estou a ir longe demais e já te estou a chatear. A seca do costume. Só mais um. Prometo que não demoro. Não te ocupo a linha.

A Síndrome de Estocolmo. É um mero estado psicológico em que as vítimas de um rapto desenvolvem relações de amizade com os seus raptores. Tornam-se cúmplices. Defendem-nos em tribunal se for caso disso. Conseguem até ajudá-los a fazer assaltos. Tornam-se raptores, possivelmente. Uma história sem fim. Circular. Que não tem cura. É do que me lembro. De repente sinto que também fui raptado. Que me levaram para um sítio qualquer que desconheço e que não me deixam sair de lá. E dialogo de maneira cordial com os meus raptores. Com o meu único raptor. Converso com a minha tontura. O único ocupante do meu edifício. A Galeria Uffizi. Contigo. Eu. Doente?

Não acreditas que neva, pois não? Está tudo tão claro que a cor se perdeu. O meu carro perdeu a tonalidade que tinha. Fiquei daltónico. Caíram umas bombas algures num país distante, no centro do mundo. Vinha a ouvir na rádio. Morreram pessoas. Explodiram. Mas não sinto nada. Não sinto nada por elas. Não sinto nada pelo mundo lá fora. É tudo tão normal. As bombas. As explosões. Os tiros. Os saques. As iras. Não achas normal? Corriqueiro? Banal? Tão verdadeiro, como tudo o resto? Divertido, quase me apetece dizer. Que estado clínico será este, o de não sentir nada, o de sentir só o que se sente? Ocupado por todo este “agora”, que já não serve ninguém?

E lá estão os do costume a arreganhar-se com os seus ensaios, as suas explicações. As telefonias. As ilhas da Madeira. Os Bushs e os Esticas. Fuck you, podia dizer se alguém com essa língua estivesse aqui. Morre-se porquê? Num autocarro, numa escola, numa clínica dentária, ou de caminho para casa, assim sem mais nem menos. Como um pacote de bolachas. Morre-se como uma aspirina. É assim o mundo em que se vive.

O nosso mundo. A Síndrome do Planeta Terra.

Eu que me atiro de cabeça para o teu Mel, sem medo nenhum, como um kamikaze. Que me perco de amores, de beleza transcendental, em Jerusalém, em Estocolmo, em Florença. Na cidade onde fica o centro do mundo. Com o meu exército, de uma só pessoa, um só capitão. Coxo! E que diferença faz quando o chão está cheio de neve e o sol continua a passar-me por cima? Alguém me ouve?

Está lá? Estou a ficar sem bateria. Sem linha. É sempre o mesmo a seguir ao túnel. É melhor desligar. Afinal estou a falar para o boneco. O branco não pára de cair. És tu?

[PUBLICADO NO JORNAL HOJE MACAU NO EXACTO DIA DE 8 DE JULHO DE 2005]