Aqui só há uma lenda e não tem legendas

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Luís Amorim morreu aos 17 anos. Vitor Silva anos antes, também jovem, em pleno dia. Também foi, igualmente sem justiça. Ambos eram portugueses. Mas não importa a nacionalidade, o que importa é que ninguém, ou quase ninguém, fez nada para tentar apurar a verdade que por vezes vive muito distante da realidade. Na terra onde tudo parece ser a brincar e estar fora do sítio. Ou será a faixa errada de um disco riscado? E, já agora, quantos mais ocuparam a mesma cadeira dos quais nunca se ouviu falar? Ninguém sabe.


Um episódio recorrente em Macau, que se aprende mal se chega, é saber o que devemos ou não dizer para que não se comece a pisar um quintal que não nos diz respeito. Tarefa difícil.

O que nos diz respeito então? Se alguém comete uma fraude e consegue um negócio vantajoso, no limite de uma certa legalidade, mas ainda do lado de cá – como se existissem dois lados quando o logro fala por si – isso decerto não diz respeito a quem está de fora. É um jogador e é apenas mais espertalhão do que todos os outros. É um vencedor no campeonato do seu belo pátio. Ponto final.

Mas há coisas que nos afectam colateralmente, que sobram de um elemento para o outro e que se arrastam até nós como as marés de um rio. A questão do trânsito, da poluição, a inflação, a eficácia dos serviços governamentais e por aí fora. A língua está sempre pronta para o protesto. O que há e o que não há na metrópole onde vivemos. O que devia haver para que essa – esta! – cidade tenha letra maiúscula e seja considerada como tal e não uma aldeia em que as boas intenções muitas vezes não saem do papel ou da cabeça de quem as pensa. Periodicamente, a humidade aqui ofusca as ideias luminosas de quem as produz e as coisas acabam por correr como a água opaca que vagueia por este domínio do Delta. Deixa-se andar. Ninguém vê, ninguém quer saber.

No entanto, há outras certezas que infectam directamente os alicerces de qualquer sociedade e que não podem ser deixadas passar em claro. O problema das instituições de saúde que são a força que nos protege, que devem estar sempre disponíveis ao nosso lado em caso de emergência, como segurança plena de uma civilização desenvolvida. E não o contrário: recear que aconteça qualquer coisa e não existir lugar onde ser assistido. Depois há a questão premente da Justiça, ponto chave de qualquer estado que se rege pelo primado da lei e do Direito. A justiça, sim. Fala-se dela a toda a hora. O que é justo e o que não é. O que vale e o que fica. Palavras mais caras. Que flutuam conforme a bolsa de cada um.

Há assuntos que não podem ser escritos de outra maneira. Um deles é a realidade. Escreve-se com todas as letras e sem enganos. Existe dia após dia, sempre à mesma hora, mesmo sendo um martírio. Por um lado, pune-se implacavelmente e de forma exemplar, o suspeito entra no tribunal já com a cama feita. Por outro, tapam-se os olhos e vira-se a cara para o lado. E o presumível suspeito pode não ser na verdade uma pessoa, é apenas o mecanismo de uma condição, uma peça estragada que se abandona sem capacidade para aperfeiçoamento.

A justiça por vezes pratica um delito superior àquele que pretende condenar, evocando o juízo, essa causa nobre, para o fazer. Será que tem consciência do que faz? Será que consegue dormir à noite, descansada? Talvez não. Ou então, desatenta das suas acções, vive tranquila na ignorância de uma posição que não alcança: a virtude. Porque tanto pode assumi-la como pode, em seu lugar, praticar outro labor qualquer e estar noutro plano desafinado. Como se a posição da justiça fosse análoga à de um cabeleireiro ou de alguém que pinta as unhas. Algo que se coloca às camadas. Como do mesmo modo se confunde um médico com um taxista. Até aqueles que acham que fazem o bem muitas vezes estão equivocados e, no que lhes podia sobrar de humildade e de desafio, para que com isso possam aprender, perdem-se na arrogância e na insensibilidade que têm em excesso.

Para alguns o destino já está traçado.

O CASO DE LUÍS AMORIM, passados três anos sobre os acontecimentos sombrios que levaram a vida de um estudante da Escola Portuguesa de Macau, estão de novo a fervilhar no ar. E por quanto tempo? Quanto tempo até que alguém lhe ponha uma tampa em cima e o atire de novo para um canto, inanimado?

Partimos do primeiro ponto. No dia 30 de Setembro de 2007, o jovem português foi encontrado sem vida, na via sob a velha ponte Nobre de Carvalho. De pronto as autoridades competentes emergiram ao local dando o vaticínio e resolvendo a história in loco. Sem mais. “O seu filho suicidou-se!”, ouviu-se, de maneira indiferente, como se tudo fosse a mesma coisa. “Olhe, suicidaram o seu filho!”, como se de repente esse termo se transformasse em verbo regular bem ao modo do patuá local, em que tudo faz parte de uma pequena peça de teatro, cheia de humor negro. A identidade toda de um povo em cima de um palco. Com palmas e gargalhadas.

E já está, esse é o fim da história.

Para os pais do Luís, pelo contrário, foi apenas o princípio de uma longa batalha solitária para o apuramento da verdade – isso, acima de tudo – que só agora, quase 3 anos depois, vê acender-se uma pequena luz bem lá ao fundo do túnel. Talvez não se trata de obter o total rigor, mas, no mínimo, por todos os meios possíveis tentar compreender o que aconteceu, dando um passo que seja possível lá chegar, mesmo que daí não se encontre um culpado.

Ninguém aqui tem vontade de levantar mais o pano.

A partir do momento em que as autoridades de Macau obstruem essa opção de imediato estão a obstruir a nossa cidadania, como se ela se movesse como um bate estacas e tivesse semelhante importância. E não se fala de uma só instituição, fala-se de uma complexa rede organizada que incita para que o caso seja aglutinado pelo esquecimento. Uma ordem que vem de cima e que engole qualquer coloração da verdade. Sim, diz-se.

E pergunta-se, quem em Macau consegue, com um só movimento, controlar em simultâneo a policia, as autoridades judiciais, os oficiais mais graduados do ministério público, os técnicos de saúde que averiguam a precisão dos factos e ainda especialistas vindos do outro lado da fronteira que confirmam a veracidade dessa análise. E ao mesmo tempo, como se tratasse apenas de um interruptor, calassem de rompante a opinião pública com um silêncio de surdos. Quem tem esse poder? Ou quem por essas alturas se deixa controlar de tal modo, com tal cegueira?

Adivinha-se que será alguém para quem a vida de um jovem é o mal menor de uma figura muito mais complexa e viciosa. E nada do que se faça a irá recuperar, ninguém vai trazer o Luís de volta. Pode até acontecer que a verdade nunca venha à tona da água e fique para sempre enevoada por entre as mãos ímpares – ou os pés! – de quem cometeu semelhante acto. Mas se voltar a acontecer, de quem é a culpa? De quem não preveniu, de quem esqueceu? De quem teve medo de trazer o assunto para o quintal, porque é sempre preciso manter as aparências? São tudo questões no ar que vão e vêm com o vento.

Um alagado suicídio.

Mais questões. As autoridades portuguesas presentes no território devem ou não questionar, devem ou não querer saber mais? Ou levadas pela harmonia das gentes, de uma terra que se diz de letra maiúscula, se deixam estar de leque na mão. À espera que chegue o navio para o regresso. Ou o temporal.

Se de um dia para outro, os telejornais trouxerem de novo uma notícia idêntica talvez alguém volte a recordar o nome de Vítor Silva, levado à queima roupa em pleno dia, que não passa de um dos números da justiça por apurar e de quem hoje já ninguém sabe da história. E pergunta-se. Calamo-nos ou continuamos a falar? Acredito que muitos devem estar a pensar que talvez seja melhor encolher os braços e absorver o ar puro de uma terra que afinal é de fantoches e não se quer de outra maneira. Ou simplesmente fazer como certas pessoas que dizem coisas mas não dão a cara, porque a têm enfiada na areia. Preta.

E assim – não para o Vítor, não para o Luís – a vida continua.

[Memória Indulgente #4 • Publicado no jornal Hoje Macau • MAI 2010]