O esquimó que arde de frio humano

SCROLL

As equipas estão dentro do campo, onze para cada lado, como sempre, duas balizas, uns homens que supostamente deveriam estar vestidos de preto mas, pelo contrário, envergam um equipamento de cores garridas. O estádio está cheio. Bandeiras e gritos pelo ar. Joga-se o encontro mais importante do ano. Mais importante para uns do que para outros. E uns, claro, sempre com mais visão do que os outros.


Passa a bola. Estou aqui há meia hora à espera, a correr de um lado para o outro. Passa a bola!

Vou correr pela linha lateral, até ali ao fundo, e desmarcar-me. Sem bola, não faz mal. Espero que ela chegue a tempo. Corro sem bola, na esperança de a apanhar, feito parvo, só para fingir que estou a jogar. Mas passa-me a bola quando lá chegar. Estou a correr. Está tanta gente a ver. De onde é que vieram todos? Que barulheira infernal.

Merda! Estou a ficar nervoso. Não devia ter comido aquela omelete de cogumelos mágicos ao pequeno-almoço. Disseram-me que não é considerada substância dopante. E como não ando a acreditar muito na realidade actual, precisava de uma outra, à força. E o Mister, ele é que sabe. O que está a dizer o Mister? Não consigo ouvir. Calem-se um bocadinho, por favor, deixem lá de assobiar, de me chamar nomes. Para a frente? Mais para a esquerda? O quê? Homem a homem? Mato este? Dou cabo dele à dentada? Se tivesse trazido um pau seria muito mais fácil. Enfiava-lhe uma paulada no meio dos dentes, ficava muito mais bonito.

Infiltra-te?”

Como a vida se torna difícil. Há sempre um fundo a seguir ao fundo, que nos faz cair ainda mais. Mas deve ser isso. Vou infiltrar-me. Como o Mister tem um sotaque esquisito nunca se percebe bem o que quer dizer. Distrai-me. Põe-me a pensar. O que é eu vou fazer quando sair daqui? Apetecia-me pegar no carro e andar pela Quinta Circular horas a fio. Para trás e para a frente. A abrir. A desfocar as luzes dos outros carros e a transformá-las em coisas que gosto. Coisas bonitas. Estou com fome. Acho que vou comer o resto dos cogumelos que ficaram dentro do cacifo nos balneários. Foi uma amiga que os trouxe da Tailândia. Uma mão cheia deles. E vão assim. Vão mesmo crus.

Parem lá com esses flashes que me fazem mal ao juízo. Atrapalham-me. Parecem golfinhos de luz. Oh porra! Já nem sei com que equipa estamos a jogar. Pelas caras de cavalo que eles têm só podem ser Troianos. Está bem. Vou portar-me bem. Vou fingir que não vi um urso mesmo agora a passar por mim. Não era panda. Ainda para mais vinha sem roupa. Esquece. Não viste nada. Passa a bola! Será que repararam em mim? Fogo. Estas luzes são todas tão lindas. Posso transformá-las em tudo. Em letras. Em marcas de bebida. No que quiser. Em silhuetas femininas. Mas o mais fácil é deixar que por elas se transformem em Objectos Voadores Não Identificados e que se ponham a voar. Olha. Parece a nossa senhora de Fátima e tudo. Está com um penteado mais moderno. A bambolear-se, como dizem nos livros. Deve ser sueca. O Mister está a olhar muito para mim. Faz uns sinais quaisquer com as mãos. O pior é que não lhe consigo distinguir os dedos. Parecem tampos de sanita. Se isto acusa no controlo antidoping estou mesmo lixado. Lá se vai a minha carreira fulgurante. O melhor jogador do ano. O contrato, já assinado, com o Marcelona. E mais o meu mundinho todo. Está quieto. Não faças essa cara de parvo. Não te mexas tanto que isto está quase a acabar. Acredita.

Infiltra-te!”

Ai Jesus. Ai vou eu. É sempre bom correr, assim com a velocidade não tenho mais genica para pensar e há sempre um ventinho que me alivia a cara. Parece que o estádio se está a afundar de repente. Não acredito nisto. Esta noite é mesmo difusa. Vá puto. Acredita. Puuuto. Puuuuto. Puuuuto. Dá-lhe. Lá vem ele. É agora ou nunca. Este tem cara de holandês, é só apontar o canhão, fazer pontaria e lá vai para casa mais cedo. Para o meio dos diques, que já devem estar a meter água. Vá não te ponhas a cantar. Não é hora para isso. Será que me arrombaram o cacifo? Ou que aquilo cresceu de repente e rebentou com as instalações sanitárias? Olha um bicho a passar. Cheio de pernas. Disseram-me que isto era fraquinho. Não dá para confiar nas pessoas. Exageram sempre. Nunca dizem a verdade. Raio da mulher, porque é que havia de ter ido à Tailândia? E o árbitro, o que é que ele quer? Diz que tenho de vestir os calções. Mostrou-me qualquer coisa. Acho que era um sabonete fluorescente. A acender e a apagar. Com umas espirais enormes de sonâmbulo. Acho que me queria hipnotizar, o camelo. Pronto. Não são camelos. São mesmo cavalos e vêm todos nas suas quatro patas a cavalgar para cima de mim. Fujo. Só podem ser Troianos.

Passa a bola!

São uns assassinos. Está um homem a arder em cima da bandeirola de canto, cheio de frio. Porque é que eu não estou aqui? Custa alguma coisa, estar quietinho e jogar à bola? À espera de um sinal que me revele a verdadeira dimensão da vida sem precisar de escalar a face da razão. Pronto era só o que faltava. Armar-me em filósofo. Não te ponhas a cantar. Seria muito mais fácil desistir. Arrumar as botas a um canto. Com toda a sua miséria e mentiras infelizes. Ainda bem que trouxe os óculos escuros. Assim topavam que eu tinha um olho de cada cor. Estão a mudar que nem semáforos de variadíssimas tonalidades e era uma chatice, darem por isso. Vou desmaiar, agora. Só por dois segundos. Nem dá tempo para cair, mas mesmo assim caio. Pode ser que marquem falta. Aí vou eu. Já está. Agora, quando me levantar, vou ser sereno como um bálsamo. Meigo. Não sei porque é que me lembro disto. Estas palavras não vinham no repertório. Vais ver. Deixa-me só descansar um bocado. Quantos há? Quem ganha? Quanto tempo falta? Pararam a porcaria das horas. É uma perseguição vã esta dos ponteiros dentro de um relógio. Os segundos ganham sempre. O que é estranho. Os segundos são sempre os primeiros. A chegar. Nunca tinha pensado nisso. Nem vale a pena. Não me pagam para pensar.

Passa a bola! Já me infiltrei!

E é a vez dos pássaros que saem lá de cima, dessa coisa a que chamam céu, aí estão eles, a clamarem por mim. Mas continuo deitado, endividado com o medo de voar. Com as contas todas por pagar. Fora de prazo. Os ventos. Agora. Os ventos de mudança a consumir o relvado, enquanto me levanto na sombra deste Verão a passar. Gritam o meu nome. Acreditam em mim. Gritam até deixar de ouvir. Até deixar de ver. Os inimigos. A definição de inimigo que se afunila cá dentro. Que é um inimigo? Um irmão do avesso? Não sou teólogo. Nem filósofo. Senão os inimigos seriam para aniquilar. Sou apenas um cabrão de um jogador de futebol. Deu-me para isto. Ainda para mais hoje deu-me também para magias em forma de champignons. Vá mais uma dentadinha. Afinal os mortos podem dançar. Ele diz: fica se tiveres que ficar, sai se tiveres que sair, sai por pouco tempo e volta, sai por muito tempo e volta. É sempre o mesmo jogo: sobrevivência.

Ai vou eu!

Não tenho medo. Não tenham mais medo. Infiltro-me, às ordens do Mister. Corro que nem um desalmado. Para lá das quatro linhas, mas ainda do lado de cá. Não te passo a bola agora. Aqui está ela, redondinha. Foi o mensageiro da verdade que ma deu. Ai vou eu. Um já está sentado. Até lhe caiu a sela. Outro. Mais um, ainda. Não são inimigos coisa nenhuma. São gajos vulgares. Pouco brilhantes. Não acredito. Já não vejo ninguém. Estou sozinho. Ninguém grita. Deixo de cantar. O estádio está vazio. Os pássaros já cá não estão. Viajo em câmara lenta, no enigma do absoluto. Oh! É só rematar, de qualquer ângulo. Lindo! Para dentro da baliza. Aí vai ela. Come-me à força.

Puuto. Puuuto. Puuuuto!

[O Euro 2004 realizou-se no mês de Julho em Portugal. Ninguém quer saber.]