O Escritor [1ª parte]

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Disse-o noutra língua que não conhece como devia conhecer. Disse-o nas palavras que sabia dizer, que não eram muitas. Talvez cinquenta, talvez mais. Os óculos escuros abandonados na mesa, o bule de chá a chegar de imediato.


Perguntaram-me pelo Escritor. Eu, ao que parecia difícil, porque me encontrava distraído, respondi:

– Sentei-o!

Sim, é essa a verdade, sentei-o, ao Escritor; uma mesa quadrada, com dois lugares de restaurante de cada lado. Uma ligeira brisa quente que com os seus odores espreitava da zona da cozinha. Perguntaram-lhe se vinha sozinho, onde estava a namorada; riram-se, as duas mulheres do restaurante, e quando elas já estavam quase a coçar as barrigas, com o que parecia ser uma grande anedota, ele disse:

– Sim, estou sozinho!

Disse-o noutra língua que não conhece como devia conhecer. Disse-o nas palavras que sabia dizer, que não eram muitas. Talvez cinquenta, talvez mais. Mas que chegavam para o caso. Os óculos escuros abandonados na mesa, o bule de chá a chegar de imediato. Sentou-se com as costas direitas virado para o vidro que o separava da rua e, sem perder mais tempo, começou a prever o futuro imediato olhando para a ementa.

Mas o interrogatório prosseguiu. Não chegava o começo da história, não chegava uma alusão do ambiente, as luzes frias, o cheiro da comida, era preciso mais.

– E depois? – continuaram eles.

Não eram polícias, nem agentes da autoridade. Na realidade não se ouvia ninguém. A meu ver, eram apenas leitores. Ávidos leitores da obra prima que se estava a escrever. E não pediam menos do que isso. Para quê perder tempo se na verdade não é uma obra prima, se é uma folha de papel igual às outras ou uma porcaria qualquer?

O Escritor, acima de todos os outros problemas que tinha, que sobrariam das páginas da enciclopédia da sua vida, se ela existisse, tinha um grave dilema com o qual se debatia no seu dia-a-dia. O problema grave do Escritor, que encobria todas as outras acções que prefaziam a sua existência, era que ele não escrevia.